Caros leitores, apresento, de seguida, o primeiro capítulo do caderno “Figueira – Figueira da Foz”, subordinado ao título “Beira-Mar e a Beira-rio”. Neste texto faço a minha análise à situação presente e lanço algumas ideias de futuro, sejam projectos a criar de raiz, ou alterações a coisas já existentes. Decerto notarão que alguns pontos estão envolvidos nalgum surrealismo e megalomania, mas outros caracterizam-se por realismo, discernimento e viabilidade. Aguardo a vossa participação através de e-mail ou de comentários no blogue “Autárquicas Figueira”. Caso esteja interessado em receber via e-mail os ficheiros PDF deste caderno, por favor solicite o envio da newsletter do "Autárquicas Figueira", no formulário que se encontra na barra lateral do blogue. Aproveito para referir que a leitura fica mais facilitada nos ficheiros PDF. Sem mais assunto de momento, deixo-vos com o primeiro capítulo deste novo projecto.
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Na análise deste tema centrarei, sobretudo, a minha atenção na faixa costeira compreendida entre a Murtinheira e o Molhe Norte da barra da Figueira da Foz, que inclui parte da frente marítima da freguesia de Quiaios e a totalidade das frentes marítimas das freguesias de Buarcos e S. Julião. Começando pela zona Norte desta faixa, encontramos uma fábrica de cimento enquadrada num local que é um autêntico museu geológico, com virtudes inigualáveis no panorama mundial. Grande parte deste património foi irremediavelmente devastada pela exploração frenética de calcário que se verificou durante décadas. O talvez mais sensível e precioso recurso do concelho é considerado Monumento Natural, mas poderia ter até condições para receber outro estatuto, quem sabe, o nível de Património Mundial. Neste local poder-se-ia desenvolver exaustivamente a investigação científica, fomentando um espaço museológico e de aprendizagem, que seria, decerto, utilíssimo e assiduamente visitado e preservado. Como o tempo não volta atrás e as grandes decisões nem sempre são bem tomadas, resta lamentar mas tentar remediar a situação, reunindo esforços com o intuito de criar condições para preservar e cuidar deste tão nobre local.
Mais a Sul, entramos na marginal oceânica de Buarcos e S. Julião. Nesta área, foco a minha atenção nos terrenos situados entre o cemitério de Buarcos e o Hotel Atlântida Sol (passe a publicidade). Nestes terrenos esteve instalada uma fábrica de cal, da qual hoje apenas resta a chaminé principal. Para além disso, houve, em tempos, o campo de futebol pelado do Grupo Desportivo de Buarcos. Após a extinção destas duas infra-estruturas os terrenos ficaram desertos, mas prontamente foram planeados projectos urbanísticos para a zona. Como se pode constatar in loco, esta projecção urbanística foi tremendamente mal feita e organizada. Um local privilegiado, junto ao mar, aparenta ter sido organizado "à podoa", sem qualquer sentido estético e de utilidade para a freguesia de Buarcos e o próprio concelho da Figueira da Foz. Ressalvo o Parque da Emide que aparenta alguma preocupação com o lazer, mas que, ainda assim, não tem a manutenção devida. Penso que esta área de, aproximadamente, 161 000 quilómetros quadrados merecia outra organização e visão de futuro. Infra-estruturas desportivas, culturais e turísticas poderiam ter sido projectadas. Esclareço que não me oponho à construção de habitações naquele local. Apenas defendo que deveriam ter sido projectadas de outra forma e devia ter ser sido feita uma conciliação dessas mesmas habitações com espaços e edificações de outros tipos.
Continuando a nossa viagem meridional, encontramos o centro da Vila de Buarcos, onde a sua Fortaleza salta logo à vista. Julgo que este Imóvel de Interesse Público é da responsabilidade do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico). Há algum tempo procedeu-se à recuperação do baluarte adjacente à Capela de N. Sra. da Conceição. Esta recuperação até poderá ter sido bem-feita (não sou especialista em recuperação arquitectónica de fortificações), mas não encontro palavras para descrever a discrepância total de aspecto da parte recuperada em relação às partes que não sofreram qualquer tipo de intervenção. Não só não é agradável à vista dos buarcosenses e figueirenses, como decerto causará espanto aos turistas que contemplam e fotografam o centro mais relevante da vila de Buarcos e um dos monumentos mais antigos do nosso concelho. Já que levaram a cabo a recuperação daquele baluarte, ao menos que façam o mesmo com toda a muralha. Talvez seja uma posição radical, mas é a minha posição. Actualmente estão a ser desenvolvidas obras que requalificarão a parte de cima da Fortaleza de Buarcos e que a transformarão numa verdadeira esplanada de cruzamento pedonal com uma vista privilegiada para o areal e marginal de Buarcos e Figueira da Foz. Esta intervenção poderá beneficiar os comerciantes da Rua 5 de Outubro e Largo Maria Jarra (Má Língua), bem como valorizar ainda mais esta zona que se pode considerar histórica, da vila de Buarcos.
Na zona defronte à Rotunda do Pescador encontramos o famoso "terrapleno de Buarcos", onde se encontram os balneários públicos, um parque infantil, um parque radical, entre mais algumas coisas, como é o caso dos carrosséis que frequentemente ali "assentam arraiais". Este local pode ser ainda mais organizado e dotado de estruturas que sirvam com mais qualidade as pessoas. No entanto, enquanto não surgirem boas ideias para essa requalificação, há que manter aquele espaço asseado, coisa que nem sempre se verifica.
No seguimento da Rotunda do Pescador até à Ponte do Galante, ou seja, na Avenida do Brasil, encontramos uma excelente estrutura de mobilidade "amiga do ambiente" - a ciclovia. A marginal oceânica está dotada com vários troços destas vias de circulação velocipédica. Ainda assim, há algumas críticas que têm que ser feitas. A ciclovia situada entre o cemitério de Buarcos e o final da Avenida D. João II, junto à estrada de acesso à estrada do Cabo Mondego, foi um pouco mal imaginada. Concordo que os ciclistas merecem ter uma vista de mar enquanto fazem os seus passeios, mas não posso ser a favor de uma ciclovia e de um passeio siameses. Não há nenhuma barreira que faça uma clara separação entre as duas vias. O desrespeito notório dos peões que invadem a ciclovia, que provoca muito frequentemente situações embaraçosas e extremamente perigosas, aliado à má localização da via reservada a ciclistas faz com que qualquer pessoa cometa uma contra-ordenação. Ao caminharem pelo ciclovia os peões cometem uma contra-ordenação que, em último caso, é punível com multa. Por sua vez, os ciclistas que não utilizam a ciclovia por recearem acidentes escusados cometem uma contra-ordenação ao circularem pela estrada, uma vez que há uma via reservada a velocípedes contígua à avenida. No que toca à ciclovia da Avenida do Brasil não há reparos a fazer, a não ser o facto de existirem partes de árvores e arbustos que obstruem partes da via e que obrigam os ciclistas a manobras, por vezes, bruscas de modo a tentar evitar um choque desnecessário mas perigoso. No caso da Avenida do Brasil, só circula a pé, ou noutro meio de locomoção que não seja uma bicicleta pela ciclovia, quem for completamente negligente e desrespeitador do ordenamento do trânsito, uma vez que logo ali ao lado tem ao seu dispor um dos passeios mais largos do concelho.
Ainda assim, poderia ser feito mais um troço de ciclovia que ligasse a já existente na Av. do Brasil ao passadiço de madeira junto ao Oásis, que dá início a uma outra ciclovia cujo percurso sobre o areal termina já perto da Torre do Relógio. Sei que se trata "apenas" de uma distância de 100m, mas, em caso de acidente, poder-se-iam evitar complicações ao nível de atribuições de culpas, que será sempre dos ciclistas, caso circulem em cima da bicicleta no passeio. O primeiro erro acontece quando uma ciclovia é feita desembocando num passeio. Se a ciclovia é para velocípedes tem que acabar com uma rampa para a estrada e não com uma saída para um passeio, sítio onde as bicicletas não deveriam circular. Podem argumentar que o ciclista deve desmontar a bicicleta, mas sabe-se muito bem que isso não acontece. Não há dúvida de que era extremamente fácil fazer a via com fim na estrada. Se há uma ciclovia mais à frente e se a forma menos perigosa de os ciclistas a alcançarem é circulando pelo passeio, penso que o bom-senso deveria fazer com que fosse construído mais um pequeno troço, pois há espaço mais do que suficiente para o efeito. Aproveito esta onda em que abordo as ciclovias para apontar a recente construção de uma estrutura deste género na Avenida Saraiva de Carvalho, cuja extensão está compreendida entre a Praça da Europa e a Estação dos CP. Neste aspecto concreto penso que tudo está bem projectado e não há complicações dignas de serem criticadas. Sugiro, talvez, que podia ser projectada uma extensão desta ciclovia que ligasse a Praça da Europa à entrada da Marina de Recreio.
Voltando à marginal oceânica, chegamos a um local que não é menos do que o ponto de grande discórdia e contestação da actualidade figueirense - a Ponte do Galante. Vou começar por falar do Oásis. Na época da construção e projecção deste local julgo que a maioria tem uma opinião positiva em relação ao projecto edificado. Um oásis parecia uma boa ideia e era uma forma de diversificar e dinamizar a animação na cidade. O aspecto era agradável, a afluência de pessoas era grande. Foi chão que deu uvas. No entanto, e confesso que desconheço as razões, o espaço foi sendo abandonado e deixou de ser o que era. A manutenção foi muito reduzida e houve uma grande afluência, no Oásis, de outros animais que não as pessoas. Como é que uma cidade como a Figueira da Foz, que se gaba de ser um pólo turístico e pretende atrair turistas, permite que num dos espaços mais nobres do tecido urbano local haja aquele triste espectáculo? Como é que se chega ao ponto de haver uma praga de ratos em plena zona emblemática da marginal? Como é que se chega ao ponto de as infra-estruturas estarem completamente vandalizadas e não haver ninguém que mexa uma palha para reclamar? Como é que se chega ao ponto que todos nós conhecemos e que dispensa apresentações escritas? Se o Oásis não serve para nada, então tem que ser demolido, extinto e eliminado do mapa. Se o Oásis é para ser usado e aproveitado, a requalificação não é para ser feita para hoje ou para amanhã: é para ontem! É simplesmente inconcebível, inqualificável e repugnante a situação a que se deixou chegar aquele espaço. É preciso agir!
Em relação ao que resta falar da Ponte do Galante... também não sei como abordar a questão. A Figueira precisava de um (apart)hotel? Penso que sim, nisso não há dúvida. Contudo, precisava de um hotel daquela dimensão? Talvez, mas com um menor número de andares. Poderia ter uma fachada mais larga, o que permitia a construção do mesmo número de quartos num edifício com menor altura. Pronto, que precisava de um hotel de alguma dimensão, estamos esclarecidos. Mas agora surgem as restantes perguntas. A Figueira da Foz e os seus políticos precisavam de desencadear processos jurídicos por causa de terrenos e projecção de infra-estruturas? A Ponte do Galante merecia "levar" com sete (julgo que é este o número) torres de apartamentos e um hotel, que afinal é aparthotel, daquele tamanho? Seria preciso terem-se levantado tantas ondas e tanta contestação por causa de uma questão deste género? A Figueira da Foz dá-se ao luxo de se prejudicar quando tenta beneficiar-se. Num local onde poderia ser construído um hotel de qualidade, com um espaço circundante de grande categoria, nomeadamente ano nível de zonas verdes e de lazer, estão a ser edificadas 8 monstruosidades que nem espaço terão para respirarem em condições. Julgo que não é necessário fazer mais comentários a este respeito. Lamentável.
Entrando agora na Avenida 25 de Abril. Esta avenida e uma parte da Avenida de Espanha constituem a marginal oceânica da freguesia de S. Julião. O único apontamento que tenho a fazer sobre este local não se trata bem de uma crítica, mas sim de uma ideia. No meu ponto de vista, esta Avenida deveria ter um maior espaço pedestre. Julgo que faltam espaços pedonais de qualidade na nossa cidade. Tudo está projectado para que haja uma boa qualidade quando circulamos na rodovia (ainda que haja alguns pontos negros no trânsito, fruto de más decisões), mas para que haja um défice de qualidade quando caminhamos. Não encontramos infra-estruturas que possam satisfazer a nossa qualidade vida quando circulamos a pé, junto ao rio, ou junto ao mar. Vimos a pé desde o Cabo Mondego até à Estação dos CP, encontrando apenas três espaços de restauração junto ao passeio, na proximidade do rio e do mar, o antigo "Costa", o "Docas Bar" e o muito recente "Skiqper Bar", este último um espaço projectado pelo Clube Náutico da Figueira da Foz e que é uma indiscutível mais-valia para a zona ribeirinha da cidade, sendo um estabelecimento pioneiro que poderá fazer com que a cidade se vire mais para o Rio Mondego. Por isso, na Avenida 25 de Abril, preferia optar por aumentar o passeio junto aos prédios e chegar tudo o resto um pouco mais para o lado do mar. Contudo, sei bem que não é uma coisa prioritária, mas apenas uma ideia um tanto ou quanto megalómana. Mas não é muito agradável estar sentado numa esplanada de onde apenas se vêem veículos, ora estacionados, ora em circulação.
Em frente à Torre do Relógio encontramos a Esplanada Silva Guimarães, um espaço que ao longo dos tempos sofreu enormes alterações, variando entre um estilo mais clássico e um estilo mais vanguardista. É um espaço que deveria ser dinamizado de forma mais esclarecida e arrojada, com iniciativas culturais e temáticas, sobretudo na época balnear. Debaixo da esplanada temos alguns dos melhores restaurantes/marisqueiras/cervejarias da cidade. Ainda assim, facilmente nos apercebemos de que o passeio parece estreito e que as esplanadas dos estabelecimentos mereciam estender-se um pouco mais. No espaço compreendido entre o Turismo e o fim dos bares julgo que não ficaria nada mal a extinção da rodovia. Ainda assim, compreendo a dificuldade em arranjar alternativa. A não ser, talvez, um túnel nesse troço...
Chegamos, então, a um dos ex-líbris da cidade da Figueira da Foz - o Forte de Sta. Catarina. Um monumento considerável da nossa cidade que tem um exterior. Mas também possui um interior... Por que razão disse isto desta maneira? Porque quase aposto que mais de metade dos figueirenses nunca entrou no Forte de Sta. Catarina. Solicito, se possível, que alguém me explique as razões que impedem a abertura do Forte ao público. Será a peste, serão fantasmas dos mortos das Invasões Francesas, questões burocráticas, ou mera negligência e falta de vontade de quem de direito? A pergunta fica no ar, mas merece ser respondida. Não há uma vontade em recordar e abordar a Guerra Peninsular, a história do Forte de Sta. Catarina ou qualquer outro assunto digno de destaque, montando um pequeno núcleo museológico? Querem que o Forte de Sta. Catarina apenas sirva, como já serve, para ter um farolim e um mastro com luzes úteis às embarcações que cruzam a barra da Figueira? É que, quer se queira, quer não, o Forte tem servido somente para duas coisas: 1 - estar ali quietinho para ser observado e para as pessoas questionarem "como será por dentro?" / 2 - para ser útil à navegação entre o Oceano Atlântico e o Rio Mondego. Consta que foi anunciado um projecto de requalificação daquela zona que até prevê a criação de um espelho de água junto ao Forte. E nessa requalificação está incluída a abertura do Forte ao público? Não custa inserir esse tópico. Mesmo que todos venham a entrar no Forte e venham a não gostar da visita, ao menos puderam esclarecer a curiosidade.
Em frente ao Forte há o chamado Parque das Gaivotas. Este sítio possui, a meu ver, um terrível mau aspecto que podia ser contornado. Para além de uns arranjos no piso, fazem ali falta umas árvores e melhores condições para os eventos que ali ocorrem. O Parque das Gaivotas, que possui um heliporto, acolhe circos, recebe a feira popular de S. João e até a Feira do Livro, que noutros tempos se realizou em sítios mais aprazíveis e que teve uma dimensão digna de registo e recordação. Este vasto parque de estacionamento também acolhe, como se sabe, centenas de auto-caravanistas ao longo do ano. Também o parque onde se realizava a Expo ACIFF (um evento infelizmente descontinuado) costuma acolher centenas de auto-caravanas, não só portuguesas como estrangeiras. Não há bem a noção deste facto, mas os auto-caravanistas também são turistas. Para se ser turista é preciso passar, pelo menos, uma noite fora da nossa localidade de origem. Concordo que o consumo e despesas que os auto-caravanistas fazem na Figueira não são semelhantes aos que são feitos pelos turistas de hotel, ou de residencial/pensão, mas não deixam de consumir e de dar vida à cidade, porque também frequentam as praias, os espaços públicos e até mesmo os restaurantes e lojas. A cidade pode até conseguir ter mais lucro com os auto-caravanistas do que aquele que imagina. Criando postos de abastecimento e manutenção das auto-caravanas, que precisam de água potável e um sistema de saneamento onde possam esgotar as suas águas sujas e os depósitos dos WC, a cidade poderia ficar a ganhar. Em França, por exemplo, há milhares de postos de abastecimento em que o utilizador paga, por exemplo, 1€ e dispõe de um determinado tempo para operar no posto de abastecimento. Ao fim e ao cabo, quase tudo é lucro, já que um auto-caravanista gasta pouco mais do que 100 litros de água para satisfazer a sua necessidade. Não há volta a dar, não vale a pena pensar que os auto-caravanistas vão recorrer aos parques de campismo, porque, em primeiro lugar, não há espaços para todos. Por outro lado, há-de haver sempre um sítio onde conseguem fazer a manutenção da viatura. Por muito que se tente desincentivar a sua visita, há sempre auto-caravanistas que passam alguns dias na Figueira, nem que estacionem longe da praia. Há que ter inteligência e noção da realidade e compete à Câmara Municipal dinamizar estas acções, porque pela vontade de alguns empresários e comerciantes, este tipo de turistas era erradicado da cidade. Pelo contrário, penso que devemos apoiar quem opta por visitar a cidade e tentar até obter algum lucro com isso, criando melhores condições por forma a fidelizar essas pessoas e atrair outras. Não podemos expulsar com ignomínia quem nos concedeu a honra da sua visita, mas sim tentar proporcionar boas condições e até lucrar com isso.
Fazendo agora um último balanço em relação à área compreendida entre a Rotunda do Pescador e o Forte de Sta. Catarina, falta referir um aspecto que não desprezo - as infra-estruturas desportivas na praia. É inegável que são espaços de destaque, porque proporcionam condições para a actividade física, o que é sempre útil e digno de destaque. Ainda assim, às vezes há falta de manutenção, mas também existe algum descuido e falta de preservação por parte dos utilizadores dos campos...
Antes de entrarmos na beira-rio, resta referir a barra da Figueira da Foz, mais concretamente a questão do prolongamento dos molhes. Sou apologista desta obra, uma vez que, pelo que li e ouvi da boca de alguns especialistas, é uma coisa realmente útil, que pode trazer mais fluxo comercial à cidade e um crescimento económico. Ainda assim, não sou alheio à erosão costeira a Sul da barra. Não posso ficar indiferente à destruição de praias e redução acentuada de alguns areais da margem Sul do Mondego. Não me pode passar ao lado a ameaça que algumas infra-estruturas sofrem com as investidas do mar. Não fico, igualmente, impávido e sereno quando percebo que as condições para a prática de desportos náuticos, neste caso os desportos com pranchas, podem ver a qualidade das ondas fortemente afectada. Não sou grande sabedor da matéria, mas há, com certeza, soluções que reduzam o impacto do prolongamento dos molhes. É preciso não esquecer uma coisa - na margem Sul haverá erosão costeira, mas na margem Norte haverá um aumento dos areais das praias. Sim, o areal vai ficar ainda maior. Já estivemos mais longe de poder realizar uma mini-maratona entre a Torre do Relógio e a zona de rebentação das ondas do mar só numa viagem de ida.
Abordo, agora, o tal parque já acima referido, onde agora funcionam os estaleiros da obra de prolongamento do molhe Norte. Este parque, conforme já disse, recebeu, em tempos a Expo ACIFF (já depois de esta se realizar no Jardim Municipal), mas também foi o local escolhido para a recepção de vários circos. No fundo, foi sempre um espaço amplo e deserto, que passou a funcionar como local de estacionamento de viaturas. Não conheço o que poderá ter sido projectado para este local no tal plano de requalificação da zona ribeirinha, mas um espaço que pudesse ser ordenado por forma a receber eventos de ar livre, como exposições de grandes dimensões ou até algumas provas/demonstrações de desportos motorizados seria uma boa ideia. A única certeza que tenho é que não se deve apostar na construção de edifícios naquele local. Ou, caso isso aconteça, deverão possuir baixa altura e ser em pouca quantidade, uma vez que considero de vital importância existir um espaço amplo e livre junto ao Rio Mondego, que igualmente não tape a "cara" que a cidade tem virada para o rio.
Chegámos, agora, à zona da marina de recreio. Mais uma vez temos um espaço pedonal de excelência que só este ano teve um estabelecimento de lazer instalado. Ficou provado que aquele sítio pode acolher um café/bar/restaurante daquele género. Nem muito grande, nem muito pequeno, simples e eficaz, bem enquadrado na paisagem. Pelo que se tem visto, as pessoas procuram aquele local e viram-se para o rio. Ainda assim, nem tudo é perfeito na beira-rio. Temos a Avenida Foz do Mondego, com quatro faixas de rodagem. Um parque de estacionamento ao longo do passeio da marina, que acrescenta mais uma faixa de rodagem. Um parque de estacionamento e mais uma faixa de rodagem junto à Casa do Paço. Temos, desde a Câmara Municipal até à Capitania do Porto sempre, no mínimo, três faixas de rodagem entre o rio e os edifícios. Não será muito? Não terá sido esta uma má projecção? Lá está, proporcionou-se uma boa circulação rodoviária, mas houve um deficiente aproveitamento das potencialidades que o local tem para conceder um local pedonal mais alargado, com a possibilidade de existência de mais espaços verdes e até a tal ciclovia que percorresse toda a beira-rio. Há excesso de alcatrão naquela zona, decididamente.
Passo directamente desta última zona para a Praça da Europa. Sou um confesso admirador desta zona, uma vez que vai de encontro àquela minha ideia da existência de um espaço verde de lazer e descontracção junto ao rio. Ainda assim, nem tudo é perfeito. O Relógio de Sol é outro dos ex-líbris da cidade, que pode não ser muito útil, mas traz um encanto diferente e uma mística especial àquele sítio. Ainda assim, como não podia deixar de ser, entre a Praça propriamente dita, e o rio há mais alcatrão, uma ligeira estrada. Penso que a Praça da Europa tinha mais a ganhar se houvesse uma melhor exploração das suas potencialidades. Um pequeno café bem enquadrado e projectado no local seria uma mais-valia, assim como o “Skiqper Bar” foi uma boa aposta. Não considero que esteja a fazer aqui publicidade gratuita, uma vez que é incontornável falar de nomes de locais, neste caso que é único. É preciso trazer mais qualidade de vida aos cidadãos e isso passa por pequenos pormenores, por levar as pessoas a frequentar sítios onde não costumam passar tempo e fazer com que usufruam das suas melhores condições.
Surge, por último, o projecto e sonho mais megalómano e surreal que tenho para a cidade da Figueira da Foz – a deslocalização do Porto Comercial. Presumo que esta infra-estrutura tenha sido desenvolvida naquele local por causa da antiga ponte que fazia a travessia entre a cidade e a parte Norte da Ilha da Morraceira. Essa ponte não permitia que todas as embarcações passassem por baixo de si. O Eng. Edgar Cardoso (famosíssimo engenheiro civil que projectou a ponte da Figueira, que agora tem o seu nome) teve uma grande visão de futuro e planeou a ponte para que todas as embarcações passassem sob ela. Para mim, isto é um convite a que o Porto Comercial seja deslocalizado mais para montante do rio. Tenho a perfeita noção de que é um projecto dispendioso, quase surreal e incomportável, mas já imaginaram como poderia ser a baixa da cidade, junto à Avenida Saraiva de Carvalho? Aí sim, tenho a completa certeza de que a Figueira da Foz se viraria para o rio. Tenho a segura convicção de que a Figueira se viraria para a coisa que está na origem do seu nome – o Rio Mondego, o maior rio inteiramente português e a quem o concelho deve muito. Não é um riacho qualquer que corre por aí em qualquer lugar, mas sim o maior curso de água completamente nacional, que tem na sua foz um dos sítios mais belos do seu percurso, constituindo um magnífico estuário. A deslocalização do Porto Comercial traria uma grande amplidão àquela tão relevante zona da cidade, que só não tem mais destaque porque está afogada pelo cais que, não deixando de ser extremamente importante e influente no desenvolvimento do concelho, tira alguma beleza e potencialidade à baixa citadina. Um extenso espaço verde e de lazer poderia ser desenvolvido, podendo ser instalado um complexo com circuitos de manutenção desportiva, e até mesmo algo mais vasto e temático, com possibilidade de realização de eventos culturais, desportivos e lúdicos. A Figueira da Foz poderia apostar na criação de um centro de ciência viva relacionada com o mar. Uma espécie de Visionarium (Santa Maria da Feira) ou Pavilhão do Conhecimento (Lisboa) ligado aos temas marítimos, como a pesca do bacalhau, a construção naval, a arte xávega, a importância da água, a influência das zonas costeiras no desenvolvimento dos tecidos urbanos, entre outros. A par deste centro poderia ser desenvolvido um centro de investigação marítimo que contribuísse para os conteúdos apresentados no museu. É igualmente necessário atrair mais competições de desportos náuticos, como regatas de vela, motonáutica e tentar instalar na Figueira da Foz um desporto que está, em tudo, relacionado com a Figueira – o triatlo. A Figueira tem um concelho polivalente, como se sabe. Desde o rio, ao mar, à serra, às lagoas… Temos todas as condições para receber quase todos os tipos de desportos e não custa assim tanto promover competições desportivas.
E assim acabo esta minha análise e viagem à beira-mar e beira-rio, desde a Murtinheira até ao Porto Comercial. Qualquer coisa relacionada com este tema poderá ser acrescentada noutro capítulo deste caderno “Figueira – Figueira da Foz”. Espero contar com a vossa participação, seja através de críticas, elogios, ideias, ou qualquer outro tipo de intervenção. Até ao próximo capítulo.
Pedro Fernandes Martins
19 de Setembro de 2009